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Sua Santidade o Dalai Lama

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Cooperação entre as Religiões do Mundo

Um dia, num mosteiro da Espanha, perto de Barcelona, encontrei um monge cristão que passou cinco anos num eremitério atrás do mosteiro. Seu inglês não era bom, na verdade, era pior que o meu. Assim, não podíamos conversar muito e ficamos olhando um para o outro. Foi uma experiência gratificante. Uma vibração emanava do nosso encontro, o que me ajudou a compreender o verdadeiro resultado da prática cristã. O cristianismo tem um método, uma tradição e uma filosofia diferentes do budismo, mas pude identificar-me plenamente com esse monge.

Perguntei a ele que prática seguiu durante todos seus anos de retiro. "Concentrei-me no amor", disse-me. Como se vê o princípio é idêntico ao do budismo, o que absolutamente não significa que todas as religiões são idênticas. Sinto que a diversidade de crenças religiosas existentes é muito útil, pois há no mundo uma variedade imensa de pessoas.

Pergunta: Por que as diferentes religiões variam tanto em suas explicações sobre a verdade e o caminho para chegar até ela?

Dalai Lama: Para mim, o desenvolvimento espiritual budista é muito útil como um guia para esta vida. Isto, porém, não quer dizer que todos devam seguir o budismo. Certas pessoas podem não se identificar com ele. As várias religiões vão ao encontro das necessidades de diferentes pessoas.


De uma palestra do Dalai Lama em um encontro ecumênico nos EUA, 1979.

O fato de estarmos aqui reunidos com adeptos de várias religiões é um sinal positivo. Entre as crenças há muitas filosofias diferentes, algumas até muito antagônicas entre si. Os budistas, por exemplo, não acreditam no conceito de um Criador. Os cristãos, no entanto, fundamentam sua filosofia n’Ele. Apesar das diferenças entre as religiões budista e cristã, tenho profundo respeito pelo cristianismo. E não apenas por razões políticas ou delicadeza, mas sinceramente, pois durante muitos séculos a filosofia cristã tem servido à humanidade. Quando rezo junto com os cristãos, sinto algo, e não sei qual a palavra exata, se é benção ou graça. Em todo caso, há um sentimento comum que nos une e esse sentimento, expresso de forma sincera, será de grande ajuda para nossa força interior. Para haver o verdadeiro sentido de fraternidade, um ambiente de comunhão é essencial. Aprecio imensamente estas reuniões ecumênicas.

Todas as crenças religiosas, apesar de suas diferenças filosóficas, têm um objetivo semelhante: enfatizar o aperfeiçoamento do ser humano, o amor, o respeito pelos outros e a necessidade de partilhar o sofrimento alheio. Dentro dessa linha todas as religiões têm, mais ou menos, o mesmo ponto de vista e o mesmo propósito.

As crenças que enfatizam a fé e o amor em Deus Todo Poderoso têm como propósito a realização das intenções de Deus e, como criaturas e seguidores de um Deus único, devemos amar-nos e ajudar-nos uns aos outros. O verdadeiro propósito da fé em Deus é a realização de Seus desejos, cuja essência é proteger, respeitar, amar e servir nossos semelhantes.

Visto que a essência de várias outras religiões é também o de promover e despertar esses sentimentos e ações, creio firmemente que, a partir desta premissa, o objetivo maior de todas as religiões seja o mesmo. Cada vez mais, em diversos sistemas religiosos, os seguidores estão assumindo uma atitude salutar para com seus semelhantes, nossos irmãos e irmãs, e colocando suas boas intenções a serviço da sociedade. Esse fato tem sido demonstrado repetidamente por muitos cristãos ao longo da história. Muitos sacrificaram suas vidas em benefício da humanidade e é disso que se trata a verdadeira compaixão. Quando nós, tibetanos, estávamos passando por um período difícil, comunidades cristãs de todo o mundo propuseram-se a partilhar de nosso sofrimento e correram em nosso auxílio. Sem distinções raciais, culturais, religiosas ou filosóficas, eles nos viam como seus semelhantes. Tal gesto nos deu verdadeira inspiração e nos mostrou mais uma vez o valor do amor.

Embora em todas as religiões haja uma ênfase na compaixão e no amor, do ponto de vista filosófico, existem diferenças, o que não deixa de ser algo muito interessante. Os ensinamentos filosóficos não são o fim, a meta, mas sim a fonte de onde tiramos idéias e buscamos auxílio para nossos semelhantes. Seria inútil abordar aqui diferenças filosóficas ou entrar em discussões e críticas. Se o fizermos, surgirão inúmeros argumentos e o resultado será apenas a irritação, sem que surja nada de produtivo. Melhor é olhar para o propósito das filosofias como um todo e verificar o que partilhamos, ou seja, a ênfase no amor, na compaixão e no respeito por uma força superior.

Em nenhuma religião existe a crença de que o progresso material é suficiente para a humanidade. Ao contrário, é comum reconhecer a existência de forças superiores e que vale a pena colocar-se a serviço da sociedade. Para que isso aconteça, é muito importante compreendermos uns aos outros.

No passado, por causa de inúmeros fatores, houve discórdia entre grupos religiosos, o que não deve acontecer mais. Se observarmos profundamente os valores de uma religião, podemos facilmente transcender essas infelizes ocorrências, pois há muitas áreas em comum para se alcançar plena harmonia. Devemos apenas ficar lado a lado, ajudando, respeitando e compreendendo uns aos outros. O propósito da sociedade deverá ser o aperfeiçoamento compassivo do ser humano.

Pergunta: Na qualidade de líder religioso, Vossa Santidade tem interesse em estimular as pessoas para unirem-se à sua crença? Ou sua posição é a de estar disponível para quando alguém quiser adquirir conhecimento sobre o budismo?

Dalai Lama: Esta é uma pergunta importante. Meu interesse não é converter outras pessoas ao budismo, mas em como nós, budistas, podemos contribuir com a sociedade, segundo nossas próprias idéias. Acho que em outras crenças religiosas o pensamento é semelhante. Tendo passado os últimos vinte anos na Índia, aproveitei todas as oportunidades para encontrar-me com monges, cristãos católicos e protestantes, bem como muçulmanos e judeus e, naturalmente, hindus. Oramos juntos, meditamos e discutimos idéias filosóficas, diferentes abordagens e práticas. Tenho grande interesse na prática cristã e podemos aprender muito com seus ensinamentos. Da mesma forma, certos pontos da teoria budista, tais como técnicas meditativas, são passíveis de serem praticadas na Igreja cristã. Do mesmo modo que Buda deu-nos exemplo de tolerância e de serviço ao próximo, sem motivação egoísta, assim fez Jesus Cristo. Quase todos os grandes mestres levaram uma vida de santidade; não de luxo, como reis ou imperadores, mas como simples seres humanos. Sua força interior era tremenda, ilimitada, mas a aparência externa era própria de quem levava uma vida simples.

Pergunta: Seria possível sintetizar as religiões — budismo, judaísmo, cristianismo, hinduismo — juntando o melhor de cada uma para formar uma religião mundial?

Dalai Lama: Formar uma única religião é difícil e não particularmente desejável. Todavia, sendo que o amor é essencial a todas as religiões, poderíamos falar na religião universal do amor. Quanto às técnicas e aos métodos para desenvolvê-lo, de alcançar a salvação ou a libertação, existem muitas diferenças. Não creio, portanto, que poderíamos criar uma filosofia ou uma religião única. Além do mais, penso que a diversidade de fé é útil.

Há uma riqueza inerente ao fato de existirem tantos caminhos, tipos diferentes de pessoas com predisposições e inclinações variadas. Ao mesmo tempo, as motivações de todas as práticas religiosas são as mesmas: amor, sinceridade e honestidade. Os ensinamentos sobre compaixão e tolerância também são similares.

O objetivo maior é o de beneficiar a humanidade. Cada tipo de filosofia, à sua maneira, está trabalhando no sentido de aprimorar os seres humanos. Se colocarmos muita ênfase em nossa própria filosofia, teoria ou religião, se ficarmos apegados a elas e tentarmos impô-las aos outros, haverá conflito. Basicamente, todos os grandes mestres, como Gautama Buda, Jesus Cristo e Maomé, fundamentaram seus ensinamentos na predisposição das pessoas em ajudar seus semelhantes. Não tiveram intenção de ganho próprio, nem de criar mais problemas ou intranqüilidade no mundo. O mais importante é nos respeitarmos mutuamente e trocarmos experiências a respeito de coisas que efetivamente enriquecerão nossa prática. Mesmo que as religiões sejam independentes, há em todas um único objetivo e o estudo de cada uma nos servirá de ajuda.

Pergunta: Às vezes, ao ouvirmos comparações entre as religiões orientais e ocidentais, o Ocidente aparenta ser mais materialista e menos iluminado que o Oriente. Vossa Santidade nota esta diferença?

Dalai Lama: Existem dois tipos de alimento: para a fome mental e para a fome física. Uma combinação de ambos — progresso material e desenvolvimento espiritual — é a forma mais prática. Penso que muitos americanos, particularmente os jovens, compreendem que apenas o progresso material não é a resposta completa à vida na Terra. Agora mesmo todas as nações orientais estão tentando copiar a tecnologia ocidental. Nós orientais olhamos para a tecnologia do Ocidente sentindo que, ao progredirmos no aspecto material, nossos povos poderão atingir uma espécie de felicidade permanente. Mas, quando vou à Europa, ou à América do Norte, vejo que sob a superfície existe ainda infelicidade e inquietação. Isso indica que o progresso material não representa a resposta única para os seres humanos.


Washington, Nova Jersey, 25 de setembro de 1989.

"O Dalai Lama ensinou-nos muito sobre o budismo. Mais ainda sobre menschlichkeit (o ser humano) e principalmente sobre o judaísmo. Este encontro com o Dalai Lama abriu-nos para a integridade de sua crença. Mostrou-nos aspectos que temos negligenciado no próprio judaísmo e que só reconhecemos quando nos são refletidos pelo espelho do outro." (Rabino Irving Greenberg)

Um inusitado diálogo budista-judaico ocorreu hoje num mosteiro budista situado numa idílica colina, acima dos shopping centers e grandes lojas de varejo de Nova Jersey. "Eu quero apreender com os judeus a ‘técnica secreta’ da sobrevivência", disse o Dalai Lama, que deu início ao Encontro. O líder espiritual de 6 milhões de tibetanos e de muitos milhares de ocidentais disse que havia despertado para os vários paralelos entre o judaísmo e o budismo tibetano. Há vários aspectos comuns, tais como a devoção aos estudos e, em particular, a crença no sagrado e na interdependência de tudo o que vive.

Um shofar (chifre de carneiro) e um tallit (chale de oração) foram oferecidos ao líder budista, que colocou o chifre no cinto e jogou o xale sobre suas vestes de monge. A animada discussão durou três horas e, embora centrada em questões sérias como a manutenção da identidade cultural, a diáspora tibetana e diferenças religiosas, foi coroada de risos e alegria.

(Texto extraído da obra A Policy of Kindness, Snow Lion Publications, 1990.)