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Sua Santidade o Dalai Lama

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Entrevistas: O Expansionismo da Espiritualidade

Uma entrevista com Sua Santidade o 14° Dalai Lama por Robert Thurman

Catedrático Robert A. F. Thurman: Sua Santidade, esta é uma pergunta dupla. A independência é um objetivo realista para o Tibete? Se assim for, poderiam os líderes das outras religiões do mundo fazer mais do que já fizeram para ajudar o Tibete a atingir esse objetivo?

Sua Santidade o Dalai Lama: O atual Tibete, com sua incomparável herança cultural estreitamente associada à espiritualidade budista, está enfrentando a ameaça de extinção. Intencionalmente ou não, algum tipo de genocídio cultural está acontecendo. O tempo está se esgotando. Acredito que minha responsabilidade seja salvar o raro patrimônio cultural do Tibete. A melhor maneira de salvar esta nação e seu patrimônio é através do diálogo, diálogo com o governo chinês. Esta é a única maneira. Necessitamos algum tipo de solução política, que só pode acontecer através de diálogo que implique em compromisso, com espírito de reconciliação. Assim, o que eu peço é uma genuína autonomia, não a independência. É certo que historicamente o Tibete foi uma nação independente. No entanto, o mundo está sempre mudando. Em termos políticos, o Tibete é um país circunscrito, materialmente atrasado. Assim, para desenvolver o Tibete materialmente, seria mais vantajoso que nos uníssemos a um país maior.

Quanto à segunda parte da pergunta, individualmente os diversos líderes religiosos vêm expressando sua preocupação. Isto é bem claro. Os irmãos judeus e cristãos recentemente posicionaram-se, o que eu considero bastante animador. Um dos atuais problemas do Tibete é que há muita repressão quanto à vida religiosa; assim, naturalmente, esses líderes religiosos têm sérias apreensões. Acho que é muito útil que eles expressem suas preocupações, e nós nos sentimos muito agradecidos.

RT: Se a independência não é uma solução prática, o quê de melhor o povo tibetano pode esperar? Qual a melhor alternativa para o povo do Tibete?

DL: Acredito que seja uma verdadeira autonomia. No campo educacional, precisamos trabalhar pela preservação da cultura tibetana. No campo econômico, precisamos desenvolver a indústria, utilizando o vasto manancial mineral do Tibete. É essencial que os tibetanos tenham completa responsabilidade, que tomem conta do meio ambiente, conservando as reservas e cuidando dos interesses dos trabalhadores tibetanos, nômades e agricultores. Os chineses mostram uma preocupação constante em tirar proveito o mais rápido possível, sem se importarem com os efeitos sobre o meio ambiente. Infelizmente, eles apenas têm a intenção de fazer dinheiro rapidamente, sem levar em conta se aquela indústria beneficia ou não os tibetanos da região. Portanto, é importante que a responsabilidade pelo desenvolvimento do Tibete seja conduzida pelos próprios tibetanos. É preciso que haja verdadeira autonomia para a proteção do meio ambiente, da economia e da cultura tibetana.

Em outros setores, como relações exteriores e defesa, talvez não possamos fazer face a toda responsabilidade. O budismo tornou-se tão central para os tibetanos que nos últimos dois séculos nós tivemos uma espécie de desmilitarização geral. Não vimos nos preocupando com guerras e não mantivemos defesas efetivas em nossas fronteiras. Na prática, portanto, é mais fácil que deixemos o governo chinês assumir tais responsabilidades. Assim, esta é minha principal proposta. Acho que é muito prática e realista e abrange as coisas básicas que consideramos importantes.

RT: Se o Tibete continuar parte da China, poderão a cultura e a religião tibetanas sobreviver no futuro que se descortina?

DL: O governo indiano sempre expressou a idéia de que o Tibete é uma região autônoma da República Popular da China, e não uma parte da própria China. Isto, eu acho, tem base histórica. De acordo com tal base, a China deve respeitar nossa verdadeira autonomia.

RT: E isto inclui todo o Tibete, de tal maneira que Amdo e Kham, as áreas a leste do Tibete que foram incorporadas à China, voltem a ser reconhecidas como Tibete, a região verdadeiramente autônoma?

DL: Em minha proposta de Estrasburgo deixei claro que todo o Tibete deveria ser considerado uma só entidade. Isto é porque minha maior preocupação, meu principal interesse é a cultura budista tibetana, não apenas a independência política. Se minha maior preocupação fosse a independência do Tibete, então seria suficiente que apenas a atual Região Autônoma do Tibete se tornasse independente, deixando de lado Amdo e a maior parte de Kham. Mas a minha principal preocupação é proteger a cultura tibetana e eu não posso excluir os quatro milhões de tibetanos que habitam essas áreas. Historicamente, e mesmo hoje em dia, a maior parte dos principais eruditos tibetanos é de Kham e Amdo. Lama Tsong Khapa veio de Amdo.

RT: Sua Santidade vem de Amdo!

DL: Sim... (Risada.) Assim, sendo meu principal objetivo a preservação da cultura tibetana, se o Tibete for dividido em partes separadas e as outras regiões do Tibete tiverem sua herança cultural assimilada à cultura chinesa, então não há esperança. Assim, minha proposta trata o Tibete como se fosse um corpo humano. Todo o Tibete é um único corpo. Se fosse apenas uma questão de independência política, então mesmo uma única parte poderia ser uma nação separada. Além disso, se meu principal objetivo fosse a independência, falar sobre outras partes do Tibete poderia ser considerado uma espécie de expansionismo. Mas a minha posição é que nós desejamos permanecer como parte da República Popular da China. Quanto ao perigo de extinção da cultura budista, eu acho que a situação está ainda mais delicada nessas áreas que foram absorvidas a províncias chinesas — Amdo à província de Qinghai e Kham às de Yunnan, Gansu e Sichuan. Lá é muito difícil para os tibetanos preservar sua herança cultural.

RT: Entendo o que quer dizer, Sua Santidade. Aqueles que insistem na independência política como o único objetivo nunca pensam nesta dimensão.

DL: Uma vez que meu alvo, meu maior objetivo é a espiritualidade, a excepcional herança cultural tibetana, então devo falar abertamente em nome do povo de Kham e Amdo. E desde que aceito permanecer como parte da República Popular da China, não há implicação de expansionismo. Isto está claro?

RT: Muito claro. Então, o que Sua Santidade pede que façamos, no Ocidente, para efetivamente apoiar a causa tibetana?

DL: Conforme nossa experiência anterior, considero ser a opinião pública a nossa mais valiosa fonte de esperança. Se a opinião pública cresce favoravelmente, isto automaticamente se reflete na mídia, e tal fato induz mais apoio, mais interesse no Parlamento ou no Congresso e, com certeza, injeta um novo entusiasmo ao governo. Eu vi isto acontecer em muitos países, muito na Europa. Pelo fato de a opinião pública ser tão favorável, tão forte, a mídia é muito favorável, muito solidária. Em última análise, isto estimula o governo a querer ajudar de uma maneira prática. Presentemente estamos apelando a vários governos para que instem com o governo chinês para iniciar negociações significativas sem pré-condições. Esta é a minha principal intenção neste momento. Depois de 1959, no início dos anos 60, o governo norte-americano apoiou a causa do Tibete. Mas sem um apoio com sustentação no povo os governos podem facilmente mudar suas intenções. O apoio público que estamos recebendo agora é considerável. E ele realmente vem do público. Isto não muda da noite para o dia. A política dos governos sempre pode mudar, mas a simpatia do povo permanece. Assim, no cômputo final eu considero a opinião pública muito importante. As pessoas podem ajudar incrementando as atividades dos grupos de apoio ao Tibete nas diversas partes do mundo e nos Estados Unidos. Neste momento está começando um movimento muito importante entre os estudantes universitários.

RT: Sim, o Estudantes Por Um Tibete Livre.

DL: Isto, eu acho, é muito importante, muito bom.

RT: Sim, nós estamos trabalhando com Adam Yauch em seu concerto para a liberdade do Tibete. Adam me pediu para falar àquela enorme massa de jovens — e tudo que eles desejavam era mais música. Portanto, tive de falar rapidamente. Perguntei-lhes se queriam paz no próximo século. Eles gritaram: "Sim!" Então eu lhes disse que não deveriam perder tempo para falar abertamente contra políticas do nosso governo, ou do governo chinês, ou contra quem quer que eles percebam que possa promover violência e guerra no futuro. Porque o próximo século deles pode ser destruído pela guerra. Palavras agora podem evitar a guerra depois!

DL: OK! (Risada.)

RT: Assim, o apoio popular é a chave, e instruir os jovens de todo o país sobre o Tibete é crucial para um apoio a longo prazo.

DL: Há vários assuntos que chamam a atenção do público para o Tibete. Um é a cultura budista tibetana. A cultura budista tem um grande potencial para criar uma comunidade humana pacífica, não apenas no Tibete, mas também há uma grande possibilidade, já acontecendo historicamente, em todo o norte da Índia, na Mongólia, na Mongólia Exterior, em algumas partes de Xinjiang, onde os mongóis torgutos são também budistas tibetanos. Então, a cultura budista está presentemente ajudando a dar nova vida a várias repúblicas na federação russa, tais como as de Buryat, Kalmyck e Tuva. Os habitantes locais eram historicamente budistas, com a mesma tradição budista tibetana, mas sua cultura foi quase perdida. O povo mais importante que nossa cultura budista pode beneficiar é o próprio povo chinês. Quero contar duas histórias.

Kusho Bakula Rinpoche, um lama de Ladakh que é embaixador indiano na Mongólia, muitas vezes pára no aeroporto de Pequim. Ele usa as vestes de monge, e uma vez alguns militares do alto escalão chinês notaram sua presença e, sem hesitação, aproximaram-se de Rinpoche e pediram sua bênção. O próprio Rinpoche me contou isso.

A outra história é sobre um lama de Amdo que mora em Pequim. Há dez ou quinze anos ele vem dando cursos sobre budismo para pequenos grupos. Recentemente um jornalista chinês me trouxe a foto de um alto comandante militar chinês portando uniforme completo diligentemente sentado em meditação.

Estas histórias nos mostram que, quando a situação se tornar mais aberta na China, seguramente muitos chineses encontrarão proveitosa inspiração na tradição budista tibetana. Não tenho dúvida de que a cultura budista tibetana tem um grande potencial para ajudar muitos seres humanos naquela parte do mundo. Assim, torna-se bem clara a importância de preservar a cultura tibetana. Sob tal perspectiva, algumas pessoas têm se envolvido mais, têm se preocupado mais com o Tibete. Assim, para alguns o meio ambiente tibetano é importante. Alguns ambientalistas acreditam que o equilíbrio natural e o clima do planalto tibetano é muito importante para as monções regulares nas terras que circundam os Himalaias. A mineração indiscriminada, sem precauções, e o massivo desflorestamento ocasionam muita erosão. Há também o problema do despejo do lixo atômico. Há o perigo de contaminar todos os maiores rios daquela parte do mundo: os rios Ganges, Bramaputra, Amarelo, Yangtze e Mekong, todos têm sua nascente no Tibete. Assim, se alguma coisa acontece no teto do mundo, uma vasta área a leste, sudoeste e sul da Ásia é afetada. De acordo com ecologistas, a grande altitude e o clima seco são mais delicados e, uma vez que o dano aconteça, leva mais tempo para ser corrigido. O meio ambiente tibetano é um assunto muito, muito sério. Assim, para muitas pessoas ele é motivo de grande preocupação. Em terceiro lugar, existe a transferência de colonos chineses para o Tibete, sem uma verdadeira atitude de boas-vindas por parte dos habitantes locais. Este é outro problema. Portanto, quando se informa as pessoas sobre o Tibete, há esses três assuntos essenciais: não apenas violação de direitos humanos, grande sofrimento e destruição, mas também os benefícios da cultura tibetana, a importância da ecologia do planalto tibetano e o transtorno causado pela imigração em massa de chineses. Esses fatos devem ser realçados de maneira a que diferentes pessoas, que atuam em diferentes campos, possam seriamente apreciar a questão do Tibete sob sua própria perspectiva. A questão do Tibete tem aspectos muito variados.

RT: Sua Santidade acredita que a intensificação do crescimento econômico na China será favorável à causa do povo tibetano?

DL: No cômputo final, sim.

RT: Sua Santidade acredita que o governo e as companhias ocidentais privilegiaram o lucro e o comércio em detrimento dos direitos humanos e da democracia?

DL: Este é um assunto realmente complicado. Quando o governo Clinton subiu ao poder pela primeira vez, eu apoiei a proposição de conceder à China o status comercial de Nação Mais Favorecida. Mas tal política malogrou, pois não se chegou a um acordo com a União Européia e o Japão. Sem uma posição unificada, acho que é difícil causar alguma impressão na China. Como não houve resultados consideráveis para a China, as relações dos EUA com o governo chinês acabaram por se tornar mais conflitantes. Isto não é benéfico. Não é bom. A confrontação só traz resultados através da força. Esta já é uma outra situação. Assim, ou existe persuasão gentil e amigável ou o uso extremado de demonstração de força, como o envio de porta-aviões para alardear proteção às eleições em Taiwan. Mas eu acho que nenhuma das opções é de muita utilidade. Neste contexto se faz necessária muita sabedoria para saber o quanto se pode pressionar enquanto se mantém a relação. É preciso que haja um equilíbrio delicado, mantendo as boas relações ao continuar agindo amigavelmente e, ao mesmo tempo, mostrando genuína força em certos assuntos cruciais. Esta é a abordagem que precisamos.

RT: Qual a razão de o governo chinês estar atualmente reprimindo a religião e o povo tibetanos de uma maneira tão dura? Com a imposição do Panchen Lama e a retirada das fotos de Sua Santidade, porque a pressão especial?

DL: Primeiro, como comunistas ou ateístas radicais, eles nunca apreciaram e entenderam o valor da religião. Segundo, um documento chinês admitiu que o caso tibetano é similar ao movimento polonês Solidariedade, onde a religião católica e o movimento democrático estão aliados. Assim, ao ver a tradição budista tibetana associada à luta pela liberdade, os chineses fazem uma comparação com a Polônia.

RT: O que Sua Santidade pensa que pode acontecer no Tibete depois da morte de Deng Xiaoping?

DL: Não acredito que aconteça uma mudança imediata. Nos últimos dois ou três anos a liderança emergente já vem se responsabilizando por tudo. Por outro lado, a nível emocional, a morte de Deng terá impacto nas massas chinesas. Então, eventualmente...

RT: Pode o povo tibetano, fora do Tibete, preservar sua cultura por gerações face às dificuldades do exílio e às tentações do materialismo?

DL: Acho que podem mantê-la por mais uma ou duas gerações; depois, eu não sei.

RT: Os ocidentais geralmente possuem uma visão ingênua dos tibetanos e da sociedade tibetana? Eles a idealizam de uma maneira não realista?

DL: Eu acho que sim, particularmente na primeira quadra deste século, e também na primeira fase de nosso período como refugiados. Agora as pessoas estão tendo mais informações e eu acho que este sentimento está mudando. Como você mesmo, há uma nova geração mais realista, tibetologistas autênticos chegando. Por outro lado, muitos ocidentais, especialmente alguns cientistas sociais que não compreendem a religião, têm uma visão excessivamente negativa da antiga sociedade tibetana, na minha opinião. Eles tendem a adotar a visão chinesa de que os tibetanos eram supersticiosos e ignorantes. Como quando se empregam termos tais como "feudal" e "servos".

RT: É um tanto exagerado. Sua Santidade também usa "feudal" de vez em quando. Mas eu não concordo. (Risada.)

DL: A categoria de "feudal" talvez seja adequada ao nosso sistema, mas este era um pouco diferente do sistema feudal existente na Europa, na Índia, na China e na antiga Rússia czarista. Se você comparar as sociedades como um todo, a nossa era um sociedade mais compassiva.

RT: Certo. Mas não apenas devido à compaixão. Não era uma vaga diferença de atmosfera; havia uma importante diferença institucional. Na Europa e na Rússia havia um militarismo constante e, assim, o camponês ou o servo era sempre um soldado potencial. Sua vida era propriedade de seu amo e comandante militar. A sociedade tibetana não tinha muito militarismo; desde o século XVII ela foi relativamente desmilitarizada. Esta é uma enorme diferença. Afinal, o "feud" de "feudal" refere-se a lutas constantes.

DL: Interessante. Você deveria escrever alguma coisa sobre isso.

RT: Estou escrevendo alguma coisa que deve aparecer em breve. Espero que não cause um "feud". (Risada.) Última pergunta: Sua Santidade acredita que voltará ao Tibete ainda nesta vida?

DL: Oh, sim, certamente.

RT: Qual é o prospecto?

DL: Não sei. Acho que dentro de poucos anos acontecerá alguma mudança favorável. Esta é a minha impressão. De qualquer forma, estamos empreendendo todos os esforços com esperança e determinação. Com este esforço, se alguma coisa falhar não haverá arrependimento. Esta é a minha opinião.

RT: Eu venho dizendo publicamente que isto acontecerá dentro de dois a quatro anos, Sua Santidade. Por favor, não me desmoralize!

DL: (Risada.) Eu sempre disse isso. Algum tempo atrás, eu acho que falei em dez anos. Agora já baixou para dois ou três anos.

RT: Eu baixei para isso também. Se estiver errado, terei de escafeder-me.

DL: (Risada. Levantando para sair.) Obrigado.