Sua Santidade o Dalai Lama

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Responsabilidade Universal, Direitos Humanos e Paz

1. Eu me uno a todos que rendem homenagem a Sua Santidade o Dalai Lama como consciência articulada da humanidade, encarnação da sabedoria e da compaixão, alguém que transcendeu o ego e as limitações que este impõe. Hoje pudemos ver a diversidade e a riqueza dos ângulos a partir dos quais esse assunto pode ser visto. Eu escolhi um desses ângulos, ao qual vou me ater.

2. Ao focalizar a atenção da humanidade na responsabilidade universal e ao nos convidar para uma reflexão a respeito das causas da nossa atual condição, dos desafios que enfrentamos hoje e o caminho para sobrevivermos e progredirmos, Sua Santidade o Dalai Lama nos lembra dos paradigmas imutáveis da espécie humana. Diferente das outras espécies, os humanos não estão condenados a viver prisioneiros de seus próprios instintos. As características específicas de suas mentes e de suas vontades lhes dão a condição de refinar e domar seus instintos, como também de se aventurar além desses limites. Suas mentes os habilitam a entender as leis da natureza, imaginar ou enxergar alternativas, formular e definir metas, e mobilizar os meios e tomar os rumos que os levem às suas metas. Todas as suas ações, portanto, se baseiam em escolhas. Elas podem ser pensadas, impulsivas ou inconscientes. Podem resultar de inércia, covardia ou audácia. Mas, em qualquer dos casos, a ação ou reação envolve escolhas a partir de alternativas e, portanto, o ser humano tem que assumir a responsabilidade pelas conseqüências que decorrem de suas escolhas e ações. Essa responsabilidade não recai sobre os demais animais. Assim, com a habilidade de se aventurar além dos limites dos instintos, os seres humanos adentraram os domínios da responsabilidade. O ser humano, portanto, é responsável pelo que faz de sua vida e com seu ambiente social e natural, assumindo essa responsabilidade não só frente a si mesmo como também frente a todos aqueles cujas vidas são afetadas por suas ações e em cujo nome faz escolhas e toma decisões para poder agir.

3. As escolhas que o ser humano é levado a fazer são muitas e se apresentam em todos os campos e aspectos da vida e, na verdade, a todo momento vivido. Para mencionar somente algumas, elas afetam nossas motivações, nossas ações e reações nas áreas de consumo, produção, nos relacionamentos, nos limites institucionais da nossa sociedade, nas organizações que formamos ou usamos, nos processos decisórios, nas aprovações para nos adequarmos às decisões consensuais, nas instituições onde há opiniões divergentes, nos conflitos que surgem como resultado de diferenças, nos meios que adotamos para solucionar esses conflitos e assim por diante.

4. A necessidade de fazer escolhas e a liberdade de escolher surge a partir da nossa habilidade de entender a natureza e suas leis. O ser humano tem a capacidade de entender a lei fundamental de causa e efeito que rege o universo no qual atua. Consegue correlacionar eventos e acontecimentos com suas causas. Percebe que a relação entre causa e efeito é imutável e inexorável. Uma vez que tem a capacidade de identificar causas, também assume a responsabilidade de prever os efeitos dessas causas, ou as causas que provoca com suas ações. Essa habilidade não só o habilita a acompanhar as causas que surgem no momento presente, como também a prever os possíveis efeitos decorrentes das causas que cria, tanto pela ação individual como pela ação coletiva ou grupal.

5. A escolha crucial que hoje se apresenta à humanidade é decidir entre a sobrevivência e o suicídio, a sobrevivência e a extinção. Armas de destruição em massa, terrorismo e avançados métodos tecnológicos de guerra puseram a humanidade face a face com todo o espectro de destruição indiscriminada e completa da espécie e de tudo o que apoia a vida tal como existe hoje no planeta. Ninguém está a salvo. Nada é seguro. Ninguém está imune. Ninguém pode garantir segurança. As fronteiras perderam o seu significado. Todas as distinções entre combatentes e não combatentes, vítimas e vencedores foram apagadas. Todos estão vulneráveis. Nem mesmo a maior superpotência pode prever onde e como a destruição vai acontecer, muito menos criar um escudo de imunidade para proteger cidadãos ou instalações, inclusive instalações das quais a vida depende. Nenhuma arma sofisticada nem sistema de alarme pode garantir imunidade. Esse regime de vulnerabilidade universal tem produzido uma crescente consciência do significado da guerra e suas variações para o ser humano comum, inclusive para mulheres e crianças que têm sido talvez as mais atingidas por mortes, sofrimento, miséria e violação da dignidade humana, mais ainda do que os combatentes. Essa maior consciência tem levado a uma crescente disposição para intervir em defesa própria, contra a guerra como instrumento de política ou reconciliação. As manifestações de protesto contra guerras no Iraque e demais países, vistas em centenas de capitais pelo mundo, evidenciam o anseio universal das pessoas pela paz e pelos meios pacíficos de resolução de disputas.

6. Se o potencial bélico de auto destruição da espécie humana criou nas pessoas um anseio generalizado pela paz, gerou também uma consciência crescente do potencial de auto preservação da humanidade, da responsabilidade universal para se engajar em ações que assegurem a auto preservação. Não é suficiente que a paz surja como aspiração; ela tem que ser encarada e aceita como um imperativo para a sobrevivência e, portanto, como o objetivo soberano do indivíduo e dos grupos sociais. O atingimento de qualquer objetivo depende da nossa prontidão em renunciar a tudo que impeça o nosso progresso na direção desse objetivo. Isso ocorre quando o objetivo supremo é o objetivo da sobrevivência. Passa a ser muito necessário extirpar tudo o que signifique a antítese ou o repúdio à paz, e também promover o que quer que seja essencial e conducente à paz, escolher o caminho que leva à paz e não aquele que leva à guerra, à violência e aos viveiros onde germinam as sementes dos conflitos, dos ódios e dos espíritos vingativos. Agora reconhecemos que as guerras não surgem do nada. Elas emergem a partir de causas que têm seus próprios períodos de gestação. Tal como aceito pelas Nações Unidas, essas causas afloram na mente dos homens. Se devemos eliminar a guerra, suas causas têm que ser eliminadas e, uma vez que as causas que queremos eliminar surgem na mente humana, são as nossas mentes que têm que ser submetidas a um exame minucioso, trazidas sob o microscópio para detectar e eliminar as atitudes, crenças e instituições construídas com base nessas crenças que abrigam as sementes da guerra e da violência. As instituições podem e precisam ser submetidas a exame detalhados por aqueles que as criam e as mantêm, honrando o consentimento e as sanções que dão origem a sua existência e autoridade. Mas se essas, como também as crenças e as atitudes que as direcionam e sustentam, surgem e reinam nas mentes dos indivíduos, o principal objeto de escrutínio torna-se a mente do ser humano. Nenhum ser humano pode examinar a mente de outro com a mesma clareza e eficácia como faria com sua própria mente. As sementes da guerra não podem ser, portanto, eliminadas sem o exame implacável de nossas mentes, conduzido individualmente e em conjunto — e a responsabilidade por esse escrutínio é inalienável, inevitável e universal.

7. Nenhum ser humano, em circunstâncias normais, vive como uma ilha. Vive em sociedade. Sua vida, pensamentos, emoções e aspirações são todos influenciados por pensamentos, emoções e ações dos outros, — seja através das instituições ou do contato pessoal. Cada ser humano vive, portanto, através da interação constante com o ambiente que habita — seu habitat social como também seu habitat natural. A paz em sua mente, tanto quanto o estado de paz na sociedade em que vive, depende, portanto: (I) do estado e das atitudes mentais do indivíduo; (II) do estado do ambiente social no qual vive — incluindo o estado das instituições que dirigem sua vida econômica, política, cívica e social; e (III) do estado do ambiente natural que é afetado por suas ações individuais e coletivas, e do impacto resultante, que por sua vez afeta sua habilidade de satisfazer suas vontades e aspirações, como também as calamidades que são provocadas pela gradual acumulação dos efeitos de suas ações — como no caso da escassez e poluição, e calamidades naturais como enchentes, etc.

8. Tal escrutínio ou reflexão com certeza nos dirá que guerra ou paz não são um monólito, mas o resultado cumulativo de muitos ingredientes; que o edifício da paz não pode ser construído com tijolos cozidos no fogo do ódio ou da injustiça mútua; que cada tijolo terá, portanto, que ser examinado e cuidadosamente selecionado.

9. A escolha do caminho ou dos meios é igualmente crucial. Paz não é um evento. É um estado. Um estado da mente, conseqüentemente refletido no estado das instituições sociais. Tal estado mental não pode ser criado ou mantido pela maximização ou emprego de forças que são antitéticas à equanimidade e à paz. A paz é, portanto, um fim que não podemos atingir exceto através de meios que sejam coerentes com o objetivo, ou seja, a paz. Não pode ser que nós desejemos a paz, mas tentemos chegar a ela através do que a solapa e a destrói. Como disse o grande Shantideva, não pode ser que tentemos eliminar o sofrimento pela busca daquilo que faz sofrer. Dukhasya hetum ichhanti, dukham nechhanti manavah: — ou, como disse Buda: Ma Lohagulam gili pamatto, ma kandi dukham idamti dahyamano — "Se engolir a bola quente e vermelha, atraído pela sua cor rosada, quando ela o queimar não se lamurie de estar sofrendo uma dor excruciante."

10. Tal escrutínio ou reflexão com certeza nos revelará a relação inexorável entre paz e justiça. Não pode haver paz mental para o indivíduo, ou paz ou harmonia, numa sociedade onde a mente do indivíduo ou de muitos que constituem qualquer grupo são atormentadas pelo senso de injustiça e pela indignação que provém dela. Tal sentimento abre caminho para a desavença, a alienação, o desejo ardente de assegurar a justiça mesmo ao custo de uma ordem perturbadora e aparentemente pacífica que, de fato, se apóia na violência sistemática e na supressão — conduzindo afinal à sublevação violenta ou ao combate de um tipo ou de outro. A paz, portanto, depende da justiça e a justiça depende do sucesso da sociedade em assegurar oportunidades iguais de crescimento, auto-expressão e auto-realização. Um regime de iniqüidade ou oportunidades desiguais, condições desiguais de sobrevivência somente pode ser sustentado ou eternizado pela força, que é uma descrição eufemística de violência e das variantes de luta. As Nações Unidas reconheceram, portanto, que direitos humanos são pré-requisitos da paz. É a ausência, privação ou violação dos direitos humanos que conduz ao incitamento às violações da paz ou aos levantes que se precipitam em formas de luta. A renúncia às armas de destruição em massa é boa. Desarmamento é bom. Não são somente bons, mas necessários. Mas armas são sintomas, reflexos, resultados da crença de que a guerra é um instrumento legítimo e efetivo de acerto de diferenças e disputas em torno de interesses. Enquanto tal crença sobreviver, o espectro da guerra assombrará a humanidade. Depois de todos esses séculos de guerra, e depois da transformação que a guerra sofreu, tornou-se necessário avaliar a guerra como um instrumento — como um meio. Qual é o seu custo benefício para o cidadão, para a sociedade, para a humanidade? O preço que ela exige de nós vai além do que a humanidade pode pagar se quiser sobreviver? Ela terá se tornado fútil e suicida?

11. A paz, então, está inextricavelmente entrelaçada à presença dos direitos humanos; e sua violação ou privação em qualquer forma, seja no Tibet ou Dafur, na Índia, no Iraque, no Oriente Médio, ou onde quer que seja, cria motivos que colocam em perigo e solapam a paz. Todos os seres humanos têm direito à vida e, portanto, ao acesso a água, comida, abrigo e serviços médicos, inviolabilidade da dignidade humana, oportunidades iguais e tudo mais. Indivíduos, assim como grupos, têm esses direitos. Quando eles são negados, criam-se as causas do conflito e não da paz; e o resultado é guerra, terrorismo e outras formas de combate. Discriminação, privação, disparidades, manipulação de disparidades no acesso a recursos, e muitas outras ameaças à paz podem ser identificadas e analisadas. Estou certo de que muitos oradores e participantes neste seminário o farão. Meu objetivo específico foi colocar diante de vocês alguns pensamentos sobre os imperativos da paz e como estes dependem do senso universal de responsabilidade e do compromisso de engajamento no esforço para prevenir a guerra e para promover e sustentar a paz.

Obrigado!

(Palestra proferida por Shri Ravindra Varma, presidente da Gandhi Peace Foundation, em Nova Delhi, 06 de novembro de 2005. Traduzido por Robinson Pitelli.)